Artistas unem-se a cientistas em uma expedição para coletar lixo marinho

Traduzido por Mariana Coutinho Hennemann, revisado por Natalie Andreoli, Global Garbage Brasil

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Rede de pesca em Gore Point no Alasca. © Kip Evans

By Vicky Gan
SMITHSONIAN.COM

21 de novembro de 2013

Trazidos pelas águas às praias remotas do sul do Alasca, estão plásticos de todos os formatos, tamanhos e cores. Há garrafas de detergentes, isqueiros, redes e boias de pesca, tambores de óleo, mata-moscas e bolas de isopor em diversos estágios de decomposição. Eles vêm de todo o mundo, à deriva em correntes marinhas giratórias chamadas giros (gyres, em inglês), e se agarram aos cantos e recantos da costa do Alasca. Situados em um cenário de árvores, ursos pardos e montanhas vulcânicas, esses plásticos chamam a atenção dos olhos, quase bonitos – mas ainda assim, estão poluindo os oceanos do mundo.
O lixo, denominado “lixo marinho” pela National Oceanic and Atmospheric Administration (Administração Atmosférica e Oceânica Nacional), causa estragos nos ecossistemas marinhos. Ele destrói habitats, transporta espécies exóticas, enreda e sufoca espécies marinhas. Animais confundem o lixo com alimento e, sentindo-se satisfeitos, morrem de fome com as barrigas cheias de detritos. Para os humanos, o problema ultrapassa os cosméticos: o lixo marinho ameaça nossas fontes de alimentos.

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A equipe GYRE aproxima-se da costa. © Kip Evans

Em junho de 2013, uma equipe de artistas e cientistas partiu para ver o problema em primeira mão. A Expedição GYRE, um projeto do Anchorage Museum (Museu de Ancoragem) e do Alaska SeaLife Center (Centro para Vida Marinha do Alasca), viajou 450 milhas náuticas ao longo da costa do Golfo do Alasca para observar, coletar e estudar o lixo marinho. Uma exposição associada, que abrirá em fevereiro de 2014 no Anchorage Museum, irá mostrar obras de arte feitas utilizando lixo do oceano.

Para os artistas da expedição GYRE, cada dia no Alasca foi repleto de resumos científicos, coletas de dados de lixo e atividades individuais. Os quatro artistas — Mark Dion, Pam Longobardi, Andy Hughes e Karen Larsen — são conhecidos pelo trabalho que explora temas ambientais e, mais ou menos explicitamente, os prazeres e perigos do plástico.

Coleta
Mark Dion é, em primeiro lugar, um colecionador. O artista residente em Nova Iorque frequentemente trabalha como um naturalista antiquário, organizando objetos modernos e históricos em coleções que parecem armários de curiosidades renascentistas. “É assim que eu conheço as coisas”, disse Dion, “através da coleta e do contato físico direto com o material em si”.

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Mark Dion separa tampas de garrafas por formato e cor. © Kip Evans

Nas areias pretas de uma praia do Alasca, Dion cria uma montagem com tampas de garrafas, separadas por formas e cores. Não era uma obra finalizada, de forma alguma, mas um esforço para “aprender observando”. Ele se autodenomina como o “arqueólogo marciano proverbial”, tentando fazer sentido a partir dos detritos da civilização humana baseado em suas qualidades formais.

“Quando coisas estão espalhadas pela praia, elas são depositadas por forças da natureza, de forma que adquirem quase uma qualidade natural”, diz ele. “Mas não há nada natural nelas. Essa é uma forma de restaurá-las como um artefato cultural, um artefato que se encaixa desconfortavelmente nesses lugares extremamente remotos”.

Esses lugares eram remotos até mesmo para Karen Larsen, a única artista residente no Alasca na excursão. Ela viu a GYRE como uma “missão de sondagem”, uma chance de explorar partes do estado que ela não havia visitado antes. Larsen criou diversos trabalhos ambientais, tais como a “Latitude”, uma montagem em grande escala feita de gelo e neve, e a “XGRN”, uma representação gráfica do ciclo de vida de uma garrafa de água.

“O Alasca não é tão pristino como todos pensam”, diz Larsen. “Nenhum lugar ainda é realmente desse  jeito”. Durante a expedição, ela foi particularmente atraída pelos microplásticos — partículas esféricas coloridas, medindo menos de 5 milímetros de diâmetro. Armazenadas em um vidro, a coleção de pedaços de plástico da artista parece confete e, segundo ela, evoca as “pequenas mudanças em nosso comportamento plástico”, que podem ter um grande impacto positivo.

Dion destacou que os artistas e cientistas coletaram de uma “forma paralela”. Nick Mallos, um biólogo da conservação, coletou tampas de garrafas para rastrear suas origens, enquanto Odile Madden, uma pesquisadora do Smithsonian Museum Conservation Institute (Instituto de Conservação do Museu Smithsonian), testou seus plásticos coletados em relação à toxicidade. “Ao invés de se tornar uma coleta científica ou artística, ela se tornou uma única coleta que todos nós fomos capazes de usar para nossos diferentes propósitos”, diz Dion.

Pam Longobardi coleta, em parte, para limpar. Ela se sente compelida a remover tanto lixo quanto for possível. “Cada pedaço de plástico que eu recolho, levanto ou arrasto, aquele pedaço específico não irá prejudicar um animal selvagem”, diz ela. “Não irá emaranhar uma baleia. Não irá estar no estômago de uma ave ou acabar em um peixe ou foca. É por isso que eu faço isso, e eu vou me abaixar mais de um milhão de vezes e tirar o material da praia.”

Como parte da expedição, a equipe GYRE auxiliou na limpeza do Serviço de Parques Nacionais, recuperando o equivalente a um navio cheio de lixo marinho.  O convés superior do navio de pesquisa tinha uma pilha de dois metros de altura de lixo – mas ainda havia mais, incontavelmente mais, que foi deixado na praia.

Ativismo

Pam Longobardi é uma artista, uma educadora e uma ativista que não faz apologias. O seu “Drifters Project” (Projeto Traineiras) usa o lixo marinho tanto como meio quanto como mensagem. Uma parte chamada “March of Humanity” (Marcha da Humanidade), por exemplo, é uma exibição de 77 pés de sapato, ilustrando o desperdício da indústria humana. Em “Defective Flow Chart (House of Cards)” (Gráfico de Fluxo Defeituoso), 1.300 pedaços de isopor, que Longobardi tirou pessoalmente de uma caverna na Grécia, estão empilhados em um delicado santuário aparentemente antigo – embora, obviamente, não haja nada antigo nele.

“Eu vejo a arte como um braço do ativismo porque ela pode ativar”, diz Longobardi. “Eu acho que a arte tem um trabalho a fazer. Ela pode motivar as pessoas, e pode ser transformadora”. Ela foi a primeira artista a se unir ao projeto GYRE e trabalhou de perto com Howard Ferren, diretor de conservação do Alaska SeaLife Center, para recrutar outros artistas para a expedição e a exposição.

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Pam Longobardi e seu lixo oceânico. © Kip Evans

Seus companheiros na expedição compartilham a sua paixão pela conservação, no entanto, não aceitam o termo “ativista”.  Andy Hughes, um fotógrafo de Cornwall, Inglaterra, apoia ONGs ambientalistas, mas descreve suas fotos como “em cima do muro” entre a arte e o ativismo. Seu livro de 2006, “Dominant Wave Theory” (“Teoria da Onda Dominante”), por exemplo, exibe retratos em close de pedaços de lixo abandonados na praia. Mark Dion se vê com um “artista alinhado com o ambientalismo” e reconhece as limitações da arte contemporânea em alcançar o público em geral. Dion admite que seu trabalho, exibido em galerias de arte refinadas pelo globo, tende a pregar para um coro de abastados e politicamente liberais.

Longobardi, por outro lado, colabora regularmente com grupos de advocacia, lê artigos científicos, compartilha petições online e de outra forma estimula reformas nas políticas ambientais em todo o mundo. Seu trabalho a fez ficar cara-a-cara com a violência do lixo marinho, e ela estudou a ciência amplamente, embora de forma informal. “Eu não tenho nenhum tipo de censura ou impedimento em meus pensamentos e sentimentos sobre isso”, diz ela. “Eu não preciso esperar até eu provar em um artigo científico para dizer o que eu sei”.

Finalmente, solucionar o problema do lixo marinho irá exigir tanto convicção artística quanto rigor científico. A arte move as pessoas de uma forma que nem as mais chocantes estatísticas conseguem. O “golpe de mestre” da expedição GYRE, de acordo com o cientista chefe Carl Safina, deu aos artistas uma plataforma para articular o problema para uma ampla audiência. “Se os cientistas tivessem ido sozinhos e dito “nós vimos tanto lixo, e 30% dele era azul, 40% verde e 90% plástico”, não despertaria o interesse de ninguém”, diz ele. “Isso é o que eu admiro nos artistas. Seus trabalhos são instantaneamente muito mais acessíveis”.

Trazendo tudo de volta para casa

De certa forma ironicamente, os artistas utilizam a beleza para chamar atenção para a feiura do lixo marinho. Plásticos são atrativos, arranjados em cores vivas e formatos brilhantes, tão irresistíveis em um instante quanto descartáveis no instante seguinte. Como colocado por Dion, “esses objetos são feitos para seduzir”.

A arte de Longobardi também seduz, usando a “beleza” como um gancho, bem como uma “arma” racional; os observadores são arrastados para suas intrincadas criações, e então, desencorajados ao perceber que são feitas de lixo plástico. “O que eu estou falando é tão assustador que se eu fosse direto à parte assustadora, eu perderia muitas pessoas”, diz ela. Ela está atualmente trabalhando em duas peças inspiradas pela expedição GYRE – uma, uma cornucópia de plástico macabra que simboliza a “recompensa desperdiçada do planeta”, e a outra, uma escultura com uma série de pequenos a grandes pedaços de plástico, incluindo minúsculos brinquedos e a tampa de um barril, todos feitos de e representando o petróleo.

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O Serviço de Parques Nacionais corta redes por horas na Baía Hallo. © Odile Madden

Andy Hughes está criando o que ele chama de “fotografias construídas, mais parecidas com uma pintura”. Seu novo trabalho evita metáforas de destruição e sobreconsumo; ao invés disso, retrata objetos plásticos como “entes religiosos, que flutuam e habitam o céu, a terra, as praias e o mar”.

Para Hughes, a expedição não perdeu nada de sua potência emocional. Suas memórias retornam a ele, a meio mundo de distância, toda vez que ele coloca suas botas Wellington. Hughes foi para o Alasca esperando que ele fosse “vasto e vazio”, mas ao invés disso, descobriu que “ele estava completamente vivo”, repleto de milhões de organismos. Hughes disse que as praias do Alasca na verdade o lembraram das praias de Cornwall, onde mora.

De fato, Mark Dion achou estranho eles terem viajado tão longe para ver um problema que afeta todos os humanos tão próximo de seus lares. “A lição dessa expedição é de que não há fora”, diz Dion. “Não há outro lugar. Tudo de que tentamos nos livrar, nós encontramos novamente”.

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