Cresce o interesse das multinacionais em bioplásticos sustentáveis

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Uma bandeja de linguiça gourmet de porco da Woolworths. Biodegradável e compostável, ela foi aceita pela Australasian Bioplastics Association (Associação Australiana de Bioplásticos). Crédito: Doug Beckers/cc by 2.0.

WASHINGTON, 21 de novembro de 2013

Por Carey L. Biron, , IPS – Inter Press Service

Traduzido por Natalie Andreoli, Global Garbage Brasil

Oito grandes empresas multinacionais de produtos de consumo se uniram para investigar se é possível produzir uma forma sustentável de “bioplástico”, feito a partir de plantas ao invés de derivados de petróleo.

Conforme anunciado na quarta-feira, os membros da nova Bioplastic Feedstock Alliance (BFA – “Aliança para matéria-prima de bioplástico”) incluem a Coca-Cola, Nestlé, Nike, Ford e outros, bem como o Fundo Mundial para a Natureza (WWF – World Wildlife Fund), grupo de conservação com sede em Washington. Os organizadores dizem que o WWF terá como objetivo trazer perspectivas científicas para a aliança sobre as questões complicadas que têm assolado a produção tanto de  bioplásticos como de biocombustíveis.

“Se pensarmos sobre a quantidade de plástico que será necessária no futuro, ampliar o sistema de monocultura industrial irá exigir uma quantidade ilimitada de terra.” – Dana Perls

“À medida que acompanhamos o diálogo sobre biocombustíveis, podemos compreender o debate que haverá sobre o surgimento da indústria de bioplásticos, e muitas destas marcas já estão se perguntando como podem fazer este debate desde o início e evitar consequências não intencionais”, Erin Simon, gerente do programa de ciência de embalagens e materiais do WWF, disse à IPS.

“Trabalhar com o WWF poderia ser valioso no sentido de poder dizer: "Aqui está a ciência por trás de algumas destas questões e assim é a forma como vamos evitar impactos negativos no ambiente e na sociedade em geral”. Como uma organização conservacionista preocupada com a priorização dos ecossistemas produtores dessas matérias-primas, é importante ter estas empresas pedindo orientação sobre segurança alimentar, questões de uso da terra e sobre a ampla utilização de produtos químicos.”

Simon descreve a aliança como “tecnologicamente neutra”, o que significa que ela não irá realmente atuar para reunir recursos corporativos para a pesquisa e desenvolvimento de bioplásticos. No entanto, cinco das empresas envolvidas – Coca-Cola, Ford, Heinz, Nike e Procter & Gamble – já estão fazendo isso por meio de um grupo separado, chamado de Plant PET Technology Collaborative (PTC – “Tecnologia Colaborativa de PET de Plantas”).

Inaugurada em Junho de 2012, a PTC tem como objetivo desenvolver colaborativamente um tipo comum de plástico (conhecido como PET) feito inteiramente a partir de materiais vegetais. A iniciativa pegou carona em um material já em uso comercial pela Coca-Cola e outras empresas, que é feito 30% de material vegetal, a partir de cana-de-açúcar.

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A Unilever e a Danone, dois outros membros da nova BFA, já estão utilizando alguns plásticos feitos 100% a partir de material vegetal, provenientes de diversas fontes. Ainda assim, hoje, apenas cerca de 1% dos plásticos que estão sendo produzidos são feitos com materiais vegetais.

Responsabilidade abrangente
O interesse em alternativas para o plástico onipresente à base de petróleo, que caracteriza o consumismo moderno, tem aumentado substancialmente nos últimos anos, impulsionado tanto pelos consumidores como pelos fabricantes que o fornecem. Mesmo enquanto as questões de sustentabilidade ambiental têm se tornado considerações cada vez mais comuns, as preocupações sobre como as indústrias de hoje irão evoluir em um mundo pós-“pico do petróleo” continuam a crescer.

“As empresas entendem que precisam criar soluções agora para o futuro, porque elas não terão estes recursos para sempre. Mas, enquanto os plásticos feitos a partir de derivados de petróleo forem extremamente eficientes e com produção de custo muito baixo, a produção de outra matéria-prima não será favorável.” diz Simon.

“As matérias-primas que estão sendo usadas hoje são cana-de-açúcar, milho etc., e há muita pressão para se afastar destas fontes de primeira geração, porque elas são consideradas competitivas com alimentos. Então a questão é: Elas são competitivas com alimentos? Se forem, qual matéria-prima da próxima geração poderia fornecer uma fonte de matéria-prima mais sustentável?”

Uma das empresas envolvidas na nova BFA, o conglomerado de bens de consumo norte-americano Procter & Gamble, tem um plano de longo prazo para trabalhar no sentido de utilizar 100% de materiais renováveis ou reciclados em seus produtos e embalagens. O plano diz que os bioplásticos representam uma oportunidade importante neste aspecto.

Ainda assim, a empresa reconhece que obstáculos continuam a atrapalhar  o caminho até este objetivo.

“Nós reconhecemos claramente que, conforme nós avaliamos potenciais matérias-primas para os bioplásticos, iremos precisar garantir que eles estão sendo originados de forma responsável e sustentável,” disse Jack McAneny, um oficial de sustentabilidade global da empresa, à IPS. “A BFA representa uma oportunidade fantástica para trabalhar com empresas com ideias similares, com o WWF e outras partes interessadas para avaliar potenciais matérias-primas para bioplásticos e ajudar a garantir práticas de origem responsável e sustentável.”

Outros estão preocupados se esta produção poderá ser feita sempre de forma responsável. Alguns ambientalistas preocupam-se que a indústria de bioplásticos nascente – na verdade, o setor mais amplo da biologia sintética – está tão mal regulamentada no momento,  que atender a questões relacionadas com a sustentabilidade será deixado para a auto-fiscalização pela própria indústria.

“Embora seja muito encorajador que essas empresas queiram encontrar soluções sustentáveis para esses problemas, é muito importante que as questões que esta nova aliança olhe sejam abrangentes, abordando os impactos ecológicos, econômicos e sociais, em curto e longo prazo”, disse Dana Perls, uma ativista para o programa de alimentos e tecnologia do “Amigos da Terra EUA” (Friends of the Earth U.S.), um grupo de vigilância, à IPS.

“Nós temos terra suficiente para produzir a matéria-prima necessária para manter a crescente demanda por plástico? Se pensarmos sobre a quantidade de plástico que será necessária no futuro, ampliar o sistema de monocultura industrial vai exigir uma quantidade ilimitada de terra. Precisamos ter uma boa compreensão do impacto econômico que isso poderia ter sobre todas as economias no hemisfério Sul”.

Perls também observa que a discussão sobre os bioplásticos é apenas um componente do debate mais amplo sobre a biologia sintética, as implicações que ainda estão sendo exploradas pelos cientistas.

“Atualmente, não há regulamentação do governo em nenhum lugar do mundo que esteja olhando para a questão da biotecnologia em geral – as empresas estão muito a frente dos governos nos EUA e internacionalmente”, diz ela.
“Isso significa que são as empresas que produzem os produtos, aquelas que mais investiram financeiramente, que estão fazendo o teste. Em nossa opinião, esta indústria não pode ser auto-regulada. Precisamos de um quadro regulatório rigoroso, minucioso, antes de qualquer uma destas empresas ser autorizada a dizer que um novo bioplástico é um produto sustentável, que pode ser lançado no mercado.”