Fazendo conexões e aprendendo sobre Lixo Zero em Vancouver

Esta semana tive oportunidade de participar de um evento chamado The Food Connection, que ocorre mensalmente em Vancouver. Esse evento acontece há mais de 5 anos e surgiu da ideia de três amigas em compartilharem conhecimentos. No princípio falavam apenas sobre comidas, e trocas de receita. Hoje em dia os temas envolvem toda a cadeia produtiva e são abertos a toda a população. O tema desse mês foi: Zero Waste – Lixo Zero e ocorreu em meio ao clima descontraído de um pic-nic. Cada participante levou um prato de comida. Tinham pessoas de diversos países: Canadá, Japão, Noruega, Israel, Índia, Coreia, França, então deu para experimentar diversos sabores novos. Cada pessoa também tinha que levar o seu próprio prato, talher e copo e se quisesse poderia coletar as plantas disponíveis no local.

O evento aconteceu na horta comunitária CoFood Vancouver, um coletivo de vizinhos que trabalham para ajudar as pessoas a se conectarem umas com as outras. Abaixo é possível ver algumas fotos da horta comunitária que é conduzida com base nos três princípios éticos da permacultura: cuidar da terra, cuidar das pessoas e compartilhar excedentes, além dos princípios de planejamento que são baseados na observação da ecologia e da forma sustentável de interação, produção e de vida das populações tradicionais com a natureza, sempre trabalhando a favor dela e nunca contra.

Horta comunitária conduzida nos princípios da permacultura.
Alpine strawberry (Fragaria vesca) – Morangos na horta comunitária coFood Vancouver.

Depois do pic-nic, três pessoas que já haviam recebido o treinamento do grupo Zero Waste Club Vancouver fizeram uma brincadeira que eu já conhecia, que é bem comum em atividades de educação ambiental. As pessoas foram divididas em dois grupos. Cada grupo recebeu uma sacola cheia de “lixo” e foi pedido para os grupos discutissem sobre cada embalagem e descartassem corretamente nos contentores disponíveis: compostáveis, papel, recipientes mistos, bebidas e lixo. Esta é a forma como os resíduos são separado por aqui. Dentro da categoria recipientes mistos estão incluídas embalagens de plástico, caixinhas de leite, por exemplo. Algumas embalagens de bebida, como garrafas plásticas de chás, garrafas de vidro de cerveja podem ser retornadas e você recebe um valor de volta.

Analisando os materiais para escolher qual descarte eles terão. Foto por: Jenny von Enckevort.

Na foto acima vocês podem me ver entretida com a brincadeira, analisando com o grupo cada material. Na foto abaixo é possível ver minha expressão com um misto de desapontamento e reflexão ao descobrir que os copinhos de café, ditos como compostáveis, não são tão compostáveis assim. Pois é. Fiquei sabendo que são 40 empresas diferentes que fazem a coleta de recicláveis em Vancouver e nem todas possuem os equipamentos necessários para reciclar esse tipo de copo. Na minha cabeça eu poderia descartá-los no meu minhocário e eles seriam degradados pelas minhocas, mas não é assim que ocorre. Elas não deram muitos detalhes sobre o processo, mas só disseram que os copinhos e as tampas possuem várias camadas e é preciso um equipamento especial para poder compostá-los. Confesso que fiquei chocada com isso, pois é enorme a quantidade de copinhos pela cidade. Em cada esquina tem uma lojinha e as pessoas tem o hábito de andar pelas ruas tomando café. Então as empresas que não tem esse tipo de equipamento para reciclar direcionam esses copinhos para o aterro sanitário. Claro que eles são melhores do que os copos plásticos, mas eu achava que podiam ser descartados na compostagem doméstica.

Minha expressão mista de desapontamento e reflexão. Foto por: Jenny van Enckvort.

O vídeo abaixo mostra um desses copinhos “compostáveis”.

Depois da separação dos materiais pelos grupos fomos conversando e discutindo sobre cada um dos materiais. Quais deles poderiam ser encaminhados para reciclagem e quais não. Por exemplo, aquelas embalagens plásticas que ficam em pé nas prateleiras do mercado e que possuem o fechamento tipo ziplock não são recicladas. O isopor por aqui era reciclado apenas por uma empresa, mas agora não é mais. Foi comentado que existe uma proposta para que o isopor seja banido de Vancouver.

Isopor: um grande problema.

Em 2011, Vancouver criou um plano ambicioso para se tornar a cidade mais verde do mundo até 2020 (The greenest city in the world). Esse plano de ação inclui um grande objetivo: criar lixo zero, reduzindo os resíduos sólidos para o aterro sanitário e incinerador em 50% em relação aos níveis de 2008. O conceito LIXO ZERO consiste no máximo aproveitamento e correto encaminhamento dos resíduos recicláveis e orgânicos e a redução – ou mesmo o fim – do encaminhamento destes materiais para os aterros sanitários e\ou para a incineração. Segundo o conceito estabelecido pela ZWIA – Zero Waste International Alliance –Lixo Zero é: “uma meta ética, econômica, eficiente e visionária para guiar as pessoas a mudar seus modos de vidas e práticas de forma a incentivar os ciclos naturais sustentáveis, onde todos os materiais são projetados para permitir sua recuperação e uso pós-consumo.” Uma gestão Lixo Zero é aquela que não permite que ocorra a geração do lixo, que é a mistura de resíduos recicláveis, orgânicos e rejeitos.

Fiquei pensando como Vancouver vai conseguir atingir esse objetivo sendo que muitos materiais que poderiam ser reciclados não são e acabam indo parar no aterro sanitário.

Imagem de aterro sanitário.

O que foi comentado como possível solução é o consumidor fazer escolhas conscientes. A parte boa foi saber que todas as sugestões dadas eu já faço no meu dia-a-dia, como por exemplo: parar de usar esponja sintética para lavar louças e substituir pela bucha vegetal, levar sacolas retornáveis ao mercado, trocar a escova de dentes de plástico pela escova de bambu, trocar os absorventes descartáveis pelo coletor menstrual, consumir apenas o necessário, dar preferência para produtos não industrializados e minimamente embalados. Então enquanto as empresas e os governos não se empenham muito em arrumar solução para esse problema, ainda fica na mão do consumidor decidir onde ele vai investir o seu dinheiro. Pense nisso quando for fazer a sua próxima compra 🙂 E não se esqueça de levar uma sacola reutilizável!

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