Pesca de plástico no Oceano Antártico

Em um dos locais mais remotos da Terra, um cientista está quantificando, pela primeira vez, a concentração de partículas de plástico que são capazes de flutuar na superfície do mar, por centenas ou mesmo milhares de anos

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O pesquisador Erik Van Sebille arrasta uma rede na parte posterior do navio Akademik Shokalskiy para coletar amostras de água do mar. Sua pesquisa envolve o monitoramento da concentração de partículas de plástico. Fotografia: Laurence Topham / Guardian

Por Alok Jha, The Guardian – 10 de Dezembro de 2013

Traduzido por Natalie Andreoli, Global Garbage Brasil

Erik Van Sebille está procurando por algo muito fora do normal no Oceano Antártico: plástico. Ele foi para uma das partes mais remotas do mundo – o mais longe possível das grandes concentrações de pessoas – para procurar materiais que os seres humanos jogam fora.

Erik Van Sebille é um oceanógrafo da University of New South Wales, na Austrália, e um dos líderes de pesquisa no Australasian Antarctic Expedition (Expedição Antártica Australásia), foi um dos primeiros a iniciar o seu trabalho científico a bordo do navio  Akademik Shokalskiy. Na parte da manhã, em nosso primeiro dia de expedição, ele jogou ao mar uma rede de plâncton de dois metros de comprimento, com um frasco de meio litro preso a uma extremidade. Depois de cinco minutos arrastando essa estrutura por trás do navio, ele tirou o frasco e tinha em suas mãos algo que parecia um pouco com uma sopa de ervilha – água do mar cheia de plâncton, pequenos crustáceos (krill) e, possivelmente, pedaços de plástico. Para sua pesquisa, ele irá coletar muitas amostras de água do mar em diferentes latitudes, peneirando cada uma para identificar suas partes constituintes.

O plástico que ele está procurando é o material que no início é um bem de consumo e por fim acaba indo parar no mar como lixo. O plástico se rompe com o passar do tempo, pela ação da luz solar, em fragmentos de não mais do que um milímetro de diâmetro. Essas partículas podem flutuar por centenas a milhares de anos na superfície do mar. Os cientistas identificaram enormes áreas nos oceanos Atlântico e Pacífico Norte, por exemplo, para onde as correntes de água arrastam as partículas de plástico, que se acumulam. Em alguns desses lugares, parece haver mais plástico do que plâncton na superfície. As partículas podem atrair algas, absorver substâncias químicas tóxicas e têm grandes impactos sobre toda a cadeia alimentar marinha.

Até agora, ninguém mediu a quantidade de plástico no Oceano Antártico, em parte porque é um lugar muito remoto, mas, também, porque os oceanógrafos têm assumido que as correntes de superfície predominantes limitariam qualquer plástico de se acumular por lá. Erik Van Sebille tem como objetivo preencher essa lacuna de conhecimento.

“Queremos descobrir, de forma sistemática, quanto de plástico que existe lá”, ele me diz. “Especialmente se, considerando que vamos sair relativamente perto da Nova Zelândia e ir mais em direção ao sul, e com que rapidez a quantidade de plástico realmente diminui.”

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Uma amostra “sopa de ervilha” de água do mar, espessa, com plâncton, pequenos crustáceos (krill) – e, possivelmente, partículas de plástico. Fotografia: Laurence Topham / Guardian

Ontem à noite, algumas medições usuais também começaram: uma das equipes de ciência prendeu um tubo de metal de meio metro de comprimento, repleto de sensores eletrônicos, a uma corda longa e mergulhou-o no mar. Arrastada na parte posterior do navio durante todo o período da viagem para a Antártica, a “Exoprobe” (“Sonda externa”) de US$25.000 irá registrar uma série de variáveis – temperatura do mar, salinidade, pH – a cada poucos segundos, para construir uma caracterização detalhada do Oceano Antártico ao longo da nossa rota.

Na expedição de 1911-1914, liderada por Douglas Mawson, a equipe içou, algumas vezes, baldes com água do mar e usou um termômetro para medir sua temperatura. A versão de 2013 da expedição será capaz de medir as características do mar quase continuamente, dia e noite, fornecendo milhares de dados todos os dias. Nas últimas décadas, os satélites de observação da Terra mediram, a partir do espaço, a temperatura da superfície do oceano, mas ninguém o sondou diretamente, dessa forma, há mais de um século.

Na hora do almoço, os pesquisadores puxaram a Exoprobe para fazer o download das doze primeiras horas de medições e, o mais importante, para se certificar de que ela ainda estava inteira, e não havia sido mordida por nenhum tubarão curioso.

A bordo, o clima estava animado. O sol aqueceu o convés de forma inesperada e o vento era fraco. Na plataforma de observação, acima da ponte de comando, estava tão tranquilo que, em alguns momentos, teria sido possível acreditar que estávamos em um cruzeiro tropical, ao invés de a bordo de um navio de pesquisa científica em operação. A onda de enjoos tinha, felizmente, acalmado e muitos dos meus colegas passageiros haviam se recuperado o suficiente para começar a se envolver com os projetos de pesquisa.

Alguns identificaram e contaram aves de pontos de observação na ponte de comando do navio. Outros ficaram como meros espectadores no convés, na popa do navio, enquanto o líder da expedição, Chris Fogwill, glaciologista da University of New South Wales, começava sua coleta de plâncton na superfície do mar, usando o mesmo arranjo de frascos e redes que Erik Van Sebille estava usando para encontrar plástico.

“O Oceano Antártico, nessa época do ano, começa, de fato, a desenvolver enormes quantidades de produtividade biológica”, diz Fogwill. “O que nós vamos fazer é peneirá-las e depois vamos ver que formas de plâncton temos lá, uma vez que tivermos finalizado tudo. Nós vamos fazer isso todos os dias para obter a variabilidade latitudinal conforme formos descendo”.

Os dados que Fogwill coleta irão fornecer uma base de informações para os cientistas que querem estudar a variabilidade do clima da Terra ao longo de milhões de anos.

“Você pode comparar o plâncton no fundo do oceano aos anéis das árvores”, diz Erik Van Sebille. “Há camadas sendo formadas ao longo de milhões de anos.”

Conforme o plâncton que vive na superfície do mar vai morrendo, ele submerge até o fundo do mar – o que oceanógrafos chamam de “neve marinha”. Em alguns lugares, isso pode ser centenas de metros de profundidade no fundo do mar. Estudar quais espécies estão presentes nas diferentes camadas pode fornecer insights sobre o clima do passado. “Às vezes você tem espécies tropicais, às vezes subtropicais,” diz Erik Van Sebille. “Para interpretar esses dados, você precisa ter uma linha de base, você precisa saber o que está na superfície do oceano neste momento.”

Outros projetos de investigação científica – incluindo levantamento de mamíferos marinhos e amostragens de núcleos de gelo e lodo – irão começar nos próximos dias. E, muito em breve, iremos ver nossos primeiros pinguins. Enquanto isso, tão logo o sol se pôs (embora nunca tenha escurecido), no segundo dia, alguns passageiros relataram ter visto algo igualmente fascinante: um grupo de golfinhos na proa do Shokalskiy, saltando e apostando corrida com o nosso pesado navio.

Destaques do dia: Não me senti enjoado logo que acordei. Ver golfinhos correndo à frente do navio.
Coisas desagradáveis do dia: Meu jetlag (fadiga de vôo) ainda não passou. A luz solar incessante não está ajudando com as adaptações necessárias.